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Mula sem cabeça "Ainda hai a mula sem cabeça; custa muito, mas porém hai. Essas cousas de Deus unfum!... ninguém deve marmurá. Mamãe veio sabê, ô dispois muito tempo, qu'essas gente são iscomungado..." (Manuel Ambrósio. Brasil interior) A transformação em mula é o castigo recebido pela mulher que se entrega sexualmente a um padre. Nas noites de quinta para sexta-feira, ou de acordo com a lua, ou de sete em sete anos, ou na quaresma, enfim — os períodos variam de região para região — a concubina transforma-se e parte em galope desvairado, pisoteando tudo o que encontra pela frente. Seus cascos, afiadíssimos, ferem como navalhas. Quando retorna à casa, readquire a forma humana, porém está machucada, abatida, cheia de escoriações. Na próxima noite fatídica, tudo acontece novamente.
Para que a manceba
não se transforme, o padre deve amaldiçoá-la antes de celebrar cada
missa. Segundo Pereira da Costa, isso deve ser feito antes de tocar
a hóstia, no momento da consagração. Ao encontrar uma mula, é
preciso esconder as unhas a fim de não atrair a sua ira.
A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou burrinha é mito de origem ibérica e ocorre em toda a América. No México, é chamada malora; na Argentina, mula anima. Também é chamada alma mula, mula sin cabeza, mujer mula e mala mula. Segundo Luís da Câmara Cascudo, apesar de algumas variações, sempre é a punição recebida pela "manceba" do padre. Viriato Corrêa a chama de cavalacanga. Existem inúmeras variações sobre a sua forma: uma mula sem cabeça, com um relincho apavorante; um animal preto com uma cruz de pêlos brancos na cabeça; olhos de fogo; geme como gente; relincha; tem um facho luminoso na ponta da cauda; ninguém a vê, só se ouve o tropel; uma burra com uma listra branca no pescoço... Gustavo Barroso explica que a escolha da mula, ou burrinha, como a punição da mulher do padre, deve-se ao fato que desde mais ou menos meados da Idade Média, as mulas foram as montarias mais utilizadas pelos padres, por serem dóceis, resistentes e seguras. Animais incansáveis e bastante próximos da pessoa do padre, inclusive fisicamente. |
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Para saber mais: Amaral, Amadeu. O dialeto caipira. 4ª ed. São Paulo, Editora Hucitec, 1982, p.156 Ambrósio, Manuel. "A onça Borges". Brasil interior; palestras populares, folclore das margens do São Francisco: Januária, Minas Gerais, 1912. v.1, São Paulo, Nelson Benjamin Monção, 1934, p.50-53 Barroso, Gustavo. O sertão e o mundo. Rio de Janeiro, Livraria Leite Ribeiro, 1923, p.181-186 Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Ed. 2002, p.191-195 Gouveia, Daniel. Folclore brasileiro. Rio de Janeiro, 1926, p.46-47 Lopes Neto, João Simões. Lendas do sul. Pelotas, p.91 Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3ª ed. São Paulo, 1927, p.155 Sanches, Rafael Jijena; Jacovella, Bruno. Las supersticiones. Buenos Aires, Edições Buenos Aires, 1939, p.148 |