SONHOS: O REFÚGIO DOS DESEJOS

            Fizeram-se vãos esforços, através dos séculos, na tentativa de se compreenderem e de se explicarem os sonhos. Mas, acreditamos não haver grande diferença no modo como as raças primitivas e os povos da Antiguidade os relacionavam, pois ambos criam que os sonhos eram revelações de deuses ou de demônios, provindo de intervenções de seres de outro mundo, dando aos indivíduos a possibilidade de previsão de algum evento.

            Ainda   hoje, essa sensação perdura para muitos, concomitantemente com outra de que existe uma mensagem a ser traduzida a cada vez que lembramos ou relatamos um sonho.

            E essa tentativa de apreender o significado do sonho faz com que nos deparemos, em nosso cotidiano, com grande volume de artigos, livros e manuais de interpretação, além de inúmeros simpósios, jornadas e congressos que há sobre o tema. Sendo assim, desde os indicadores para jogos de azar até os tratados biológicos são bastante procurados por variadas classes sociais na esperança de encontrarem solução para seus males.

            Observamos, porém, que a questão afetiva, nos sonhos, geralmente, não recebe o devido questionamento.

            Pensando nos sentimentos e vivências de um sonho, notamos que nos remetem a uma variedade de emoções vívidas, como se estivéssemos assistindo a um filme ou lendo um livro, absorvidos em sua trama. Assim sendo, um sonho raramente deixa impune o sonhador, despertando-lhe, ao acordar, intensas emoções. Somos, certamente, capazes de perder um dia de humor, ficar enojados ou irritados com o que sonhamos ou, contrariamente, o prazer do sonho pode fornecer o ânimo necessário ao dia que começa.

            A originalidade do sonho difere da produção de um filme, pois sua riqueza consiste no fato de que é “um filme” produzido e visto apenas por nós. Podemos dizer que somos, simultaneamente, autores, diretores, atores e espectadores dessas cenas que falam de nossa alma, onde nos reconhecemos ou não, como agente desse enredo.

            E, exatamente pelo fato de produzirmos, encenarmos e retratarmos experiências que o mundo real jamais nos permitiria vivenciar, é que o sonho torna-se o maior veículo para escoar nossos sentimentos. É nesse lugar que o sonhador desempenha, a seu bel-prazer, todos os papéis possíveis, desde os mais loucos aos mais santos, aterrorizantes e carismáticos, sendo capazes de converter uma emoção, de criar, produzir e construir as mais fantásticas cenas. A elaboração do sonho é um trabalho árduo para o sonhador, pois tem um sentido profundamente enraizado na vida da pessoa que o elabora.

No estado de vigília, a atividade de pensar recorre, quase exclusivamente, a conceitos, utilizando-se, também, em menor grau, de imagens auditivas e impressões que pertencem a outros sentidos. Nos sonhos, em contrapartida, temos a predominância de imagens visuais, pois nos parece uma experiência vivida e não uma atividade de pensar, representando uma idéia como fato acontecido. É na maioria das vezes ao despertar, que percebemos que estivemos sonhando. Portanto, o sonho serve-se da dramatização, e não da fala, exprimindo sofrimentos, angústias e desejos de modo visceral, alucinando.

Os sonhos podem nos revelar as mais intensas e primitivas paixões, como um filme em projeção, só que, ao acordamos, deparamo-nos com o impacto das imagens que foram dramatizadas e vivenciadas com vigor e emoção.

            Por essa revelação, o ato de sonhar não pode deixar de existir, pois é o que sustenta a vida psíquica do indivíduo. É um recurso para lidar com as impossibilidades, na busca de harmonização dos impulsos. O sonho é uma operação contínua de descarga de conflitos, relativamente válida para o alívio de problemas insolúveis da vida. Por exemplo, em sonho, desaforos podem ser ditos a um chefe, em resposta às injustiças sofridas durante o dia de trabalho, sem ter como conseqüência uma demissão imediata.

            Paralelamente, os sonhos existem para proteger o sono, isto é, para permitir que a pessoa continue a dormir, repondo suas energias. Conforme Freud sentencia: “O sonho é o guardião do sono”.

            Foi Freud o primeiro a acreditar que o estudo e o entendimento dos sonhos abririam nossa compreensão para o imenso espaço interior da alma, até então não conhecido. Em seus atendimentos clínicos, propôs-se a mergulhar num mundo de escuridão, incertezas e caos, na tentativa de compreender a mensagem contida no sonho.

            A produção do sonho tem como motor os desejos. Na verdade, são eles a força propulsora para emersão de um sonho. São desejos insatisfeitos que reclamam por satisfação. Os desejos são, portanto, excitações psíquicas que fariam o sujeito acordar, por isso o sonho-Guardião do sono-, usa de artifícios para que sejam representados, permitindo que o sujeito continue a dormir. Por exemplo, tripulantes de um navio naufragado que se encontram incomunicáveis e sem suprimentos sonham com uma montanha de cigarros, com banquetes, com recebimento de telefonemas de pessoas da família. No entanto, nem todos os desejos são dessa espécie, tão imediatista. Existem desejos que são inadmissíveis para o sonhador pelo fato de entrarem em conflito com regras de conduta e leis morais julgadas válidas pela sociedade e internalizadas pelo próprio sonhador.

                Nos sonhos, sentimo-nos o centro do universo, livres e desimpedidos de todas obrigações morais e sociais e nos entregamos de corpo e alma aos desejos, lançando-nos com sofreguidão à procura de prazer. Paradoxalmente, as tendências moralmente elevadas, as aspirações socialmente apreciadas lutam por se fazerem valer, e, comumente, esses dois tipos de tendências opostas entram em conflito. De um lado, os desejos inadmissíveis que tentam ser satisfeitos de modo imediato e, de outro, um agente censor que nos aponta a moral e a ética vigente, indicando-nos o certo e o errado; o possível e o impossível; o permitido e o proibido. Por conseguinte, a satisfação desses desejos inadmissíveis requer, como conseqüência, uma nova forma de apresentá-los, uma nova roupagem, para que o sonhador não se horrorize com as cenas de seu próprio filme/sonho. Por vezes, a confusão com que os sonhos se  apresentam e sua difícil compreensão não passam de expressão de uma forte deformação que o desejo inadmissível sofreu ao se exteriorizar em forma de sonho. Podemos, assim, afirmar que esse tipo de sonho, habitual na pessoa adulta, é uma realização disfarçada de desejos insatisfeitos. Os sonhos são, portanto, realizações intangíveis de desejos não consumados.

            Os instigadores oníricos provêm fundamentalmente de acontecimentos recentes na vida do sujeito. Trabalhos inacabados, preocupações intensas, a visão de um assalto, o brilho da lua no mar, o pôr do sol, e tantas outras impressões são capazes de suscitar um sonho, na medida em que se vinculem a um desejo inconsciente. Eventos externos necessitam de uma relação com as situações do mundo interno do sujeito, a fim de viabilizarem um sonho. Ou seja, os restos diurnos, por si sós, não conseguem produzir um sonho.

            Apesar de o sonho se alimentar de materiais recentes, sua interpretação nos remete a um passado distante a que estão ligados esses desejos inconscientes. Pois esses desejos recalcados, imortais, vivem de prontidão e aguardam permanentemente a sua descarga, assim que são reinvestidos. São desejos infantis, eventos de um passado remoto, que permaneceram ignorados, e que nos sonhos são reanimados e, a cada investida, retornam para se satisfazerem. No âmago de todos os sonhos, encontra-se um desejo infantil.

            Sendo assim, consideramos possuir o sonho uma complexa rede de associações entre o passado e o presente do sujeito.

            As forças defensivas, que durante o estado de vigília são verdadeiras “guardiãs” da consciência, mantendo-se em plena atividade, enfraquecem enquanto o sujeito dorme, tornando, dessa maneira, possível a emergência dos desejos. Não obstante, tal enfraquecimento é relativo, pois as forças defensivas continuam operando com uma certa carga de energia, mesmo em estado de repouso, obrigando os desejos inadmissíveis a engendrarem-se num disfarce, apresentando-se, na maioria das vezes, profundamente deformados nos sonhos.

            A anarquia com que se apresentam os sonhos se deve ao fato de que os pensamentos oníricos são comprimidos, condensados, deslocados e superpostos uns aos outros. Essa é a possibilidade de um desejo emergir das profundezas da mente. De uma forma disfarçada, deformada, o sujeito chega a ponto de não reconhecer seus próprios desejos e ter a ilusão de mantê-los distantes. Podemos afirmar que o discurso sustentado pelo sonho separa o homem de si mesmo.

            A dimensão metafórica com que se apresentam os sonhos revela uma verdade que se confessa por meio de símbolos. De fato, tentamos nos superar a fim de revelar desejos que não admitimos em nós mesmos, das quais sentimos repugnância em pensar e falar, e que preferiríamos não contar a outras pessoas. Esses sonhos de caráter desagradável aparecem distorcidos até se tornarem irreconhecíveis, ocultando os desejos.
 

Os fatos sonhados se misturam uns com os outros de qualquer maneira, desprovidos de lógica, como se fossem um amontoado de imagens e idéias desconexas e desordenadas. Mas é dentro dessa anarquia que reside a mais alta harmonia da expressão dos sentimentos.

            A esse conteúdo, inacessível à consciência do sujeito, que remete a desejos inconscientes e proibidos, chamamos de pensamento latente. O acesso ao pensamento latente só é obtido através do trabalho de análise interpretativa do sonho, que seria a decodificação dessa manifestação onírica de acordo com o código de linguagem pessoal do sujeito.

            O trabalho do sonho consiste em transformar os pensamentos latentes em conteúdo manifesto. O conteúdo manifesto se caracteriza pela narrativa do sonho tal como o sujeito o recorda e exprime.

            Transformando os pensamentos latentes em conteúdo, faz-se necessário um jogo de artimanhas que tentam driblar a censura, para que esses desejos tenham condição de serem expressos, tal como, numa situação do contrabando, onde há necessidade de se camuflar a mercadoria proibida, para que ela passe pela alfândega sem ser percebida. Sendo assim, a transformação ocorrida com o conteúdo latente não é arbitrária, ela é pré-determinada, necessária e suficientemente eficaz para dissimular a razão do desejo. A censura protege os desejos para que esses não sejam reconhecidos. Ela tem o poder de propiciar o surgimento de lacunas, fazer omissões, e acrescentar elementos ao conteúdo manifesto. Isso faz com que o sonho, por vezes, produza algo ridículo e estranho. Essa é uma das razões porque ao sonho é imputado pouco valor.

            Na maioria das vezes, quanto mais próximos estamos do conteúdo latente, mais disfarces se fazem necessários; ou, como outra alternativa, podemos nos aproximar desse conteúdo latente, transformando-o em um conteúdo manifesto completamente destituído de sua carga afetiva ou,  ainda, incutindo-lhe uma afetividade inversa. Exemplificando, uma pessoa relata o sonho da leitura “do atestado de óbito cor-de-rosa do pai”. Enfrentar a morte do pai foi algo penoso, uma fase negra em sua vida. Substituindo o negro do luto pelo rosa, ele afasta os sentimentos dolorosos do acontecido, e tenta driblar a tristeza da memória do falecimento do pai, acreditando ser a vida cor-de-rosa, de alegrias. Essa inversão na afetividade serviu para aliviar o sujeito das tensões causadas pelo ocorrido.

            Consideramos, assim, que alguns mecanismos sejam necessários na transformação do pensamento latente em conteúdo manifesto. O primeiro deles é a condensação, onde o relato manifesto do sonho aparece como uma tradução resumida dos pensamentos latentes.

            A condensação funciona suprimindo partes dos pensamentos latentes, permitindo que apenas uma parte desses apareça, ou ainda, reunindo diferentes elementos desses pensamentos latentes em um único elemento do conteúdo manifesto, numa única idéia ou imagem. Exemplo: Era “A” com a voz de “B”, com o olhar de “C”, com o sorriso de “D”, falando coisas como se fosse “E”. Essas pessoas unidas em uma só estão relacionadas entre si para o sujeito que sonhando, torna-se capaz de representá-las em uma única imagem, reunindo características próprias de cada uma daquelas pessoas, tal como um mosaico, numa colagem, onde “pessoas compostas” ou “figuras coletivas” são representadas. E quem de nós nunca se deparou com imagens desse tipo em seus próprios sonhos ou nunca ouviu relatos desse gênero?

            Outro mecanismo é o deslocamento. Nesse processo, o acento psíquico se transfere, ou “desloca”, de um elemento para outro. Geralmente, aquilo que é importante passa ocupar um plano secundário no sonho, enquanto um elemento insignificante sobressai e passa a ter relevância. Trata-se de representar o essencial pelo acessório, ou seja, o importante aos pensamentos latentes do sonho não está, por vezes, representado. Há uma transferência de valores, fazendo com que haja uma alteração, um deslocamento de sentido.

             O deslocamento e a condensação adquirem maior coerência através da elaboração secundária. Esse terceiro mecanismo faz com que características absurdas e bizarras, do sonho obtenham uma lógica aparente, na tentativa de aproximá-lo do pensamento diurno. A fim de cumprir esse propósito de remodelação do material psíquico, a elaboração secundária também utiliza acréscimos, omissões, enlaces de elementos, no intuito de tornar o sonho coerente. Sabemos, porém, que esse sentido emprestado ao sonho é tão enganoso quanto aquele oferecido pelo deslocamento e pela condensação, ambos a serviço de distorcer seu verdadeiro significado.

            Uma pessoa sonha estar no escritório da casa de uma amiga, onde observa, numa prateleira, uma torneira de banheiro como peça decorativa. No processo de interpretação do sonho, é inquirido sobre a amiga, revelando, então, o interesse sexual que mantém por ela e a impossibilidade de conquistá-la, já que esta é namorada de um amigo. Em associação a essa fala, cantarola uma música cuja letra diz o seguinte: “Estou amando loucamente a namoradinha de um amigo meu, sei que estou errado, mas nem mesmo sei como isto aconteceu, um dia sem querer olhei em seu olhar e disfarcei até pra ninguém notar. Vou procurar alguém que não tenha ninguém, pois comigo aconteceu gostar da namorada de um amigo meu”, a seguir cai numa risada incontrolável e rememora que a peça do banheiro vista no sonho era semelhante à do banheiro de uma antiga residência, onde passara alguns anos de sua infância e onde ocorrera uma situação perturbadora: ter sido surpreendido no banheiro masturbando-se, sendo punido por seu pai.

            Aliando essa recordação a outra lembrança, o paciente recorda-se de que seu pai chamava sua mãe de “minha namoradinha”. A beleza da mãe é exaltada, confessando o paciente que suas fantasias eróticas masturbatórias diziam respeito à figura materna - “A namoradinha proibida de um amigo meu”. Novas risadas.

            Portanto, esse sonho e as associações subseqüentes nos mostram o efeito do deslocamento, onde o que é essencial passa a um plano secundário. Os acontecimentos no banheiro ficam representados pela timidez de uma peça decorativa. E o amor impossível por sua mãe, pela impossibilidade de conquistar a namorada do amigo.

            A procura de uma ajuda psicanalítica deveu-se ao sofrimento do paciente em relação às mulheres, sua dificuldade de aproximação e seu fracasso na relação sexual. Ejaculava precocemente e não tinha uma ereção satisfatória.

            Aprofundando-se no entendimento desse sonho, novas associações sucederam-se: -“Se eu me aproximar de uma mulher, conquistá-la e possuí-la, vou ser punido severamente por isso”. Uma ereção satisfatória ficava, assim, impossibilitada, já que remetia ao temor de uma subseqüente punição: sobrepujar o pai, gozar imaginariamente com a mãe, é ter como conseqüência a ameaça de castração.

A ejaculação precoce servia ao propósito de alcançar um gozo, no entanto, esse gozo devia, necessariamente, ser rápido, quase que imperceptível, a fim de ocultar seu objetivo.- “Uma rapidinha para eu não ser surpreendido”. –“...que ninguém chegue a tempo de me interromper”. E, assim, gozava ilusoriamente, com o amor de sua infância e tinha a sensação de ter burlado o pai.

            O gozo era um gozo interditado pelo pai castrador, único detentor da posse da mãe e, por contigüidade, detentor da posse de todas as mulheres. Sabemos que, na fantasia da criança, tudo isso é realidade. O sonho faz o transporte dessa realidade infantil, das situações impossíveis de serem vividas na infância para o sonho adulto. Ou seja, estamos sempre retrocedendo ao nosso passado, mesmo sem o desejar e sem nos conscientizarmos disso.

            O sonho prestou-se a aproximar o sonhador de seus conflitos e desejos. Desejos inconscientes que possuíam uma estreita relação com a sexualidade infantil. Desejos incestuosos que a análise interpretativa do sonho trouxe à luz.

            Concluindo, acreditamos que a mensagem contida no sonho remete, inexoravelmente, às questões afetivas do sujeito que sonha. O espaço que o sonho demarca serve como refúgio da alma, refúgio dos desejos. Nesse lugar, liberamos nossos sentimentos e escapamos do julgamento moral que atribuímos às situações. O sonho, um mito personalizado, o emaranhado de uma história pessoal, simboliza a dinâmica da psique.

            Nos sonhos, os conteúdos são distorcidos pelo mecanismo de censura que exige um disfarce, a fim de que os desejos possam ser realizados sem serem reconhecidos, daí o caráter absurdo e desconexo do relato dos sonhos.

            Este refúgio, em que penetramos durante o sono, nos pertence com toda a sua autenticidade. Lá reside a mágica da infância e as esperanças da vida adulta. Desejos infantis, que permaneceram recalcados, inconscientes, têm a possibilidade de retornarem e de se realizarem a cada sonho.

            A análise interpretativa do sonho conduz, certamente, a uma melhor compreensão dos nossos sentimentos e emoções, trazendo à luz desejos infantis esquecidos, mas jamais perdidos, que influenciam e movimentam nossas vidas, sem que, no entanto, nos apercebamos disto.

Ana Maria Neiva Armentano-Psicóloga, especialista em psicologia clínica.
Professora ensino público, professora substituta UERJ(2001).

Angélica Moreira de Souza- Psicóloga, psicanalista, especialista em psicologia clínica UERJ.
Mestre em psicologia social. Professora da Universidade Veiga de Almeida-UVA/RJ

Gabriella Ferrarese Barbosa- Psicóloga, psicanalista. Professora substituta da UERJ(2000).
Assistente de direção da clínica psicanalítica da violência/RJ.

Luciane Cytrymbaum Stern- Psicóloga, psicanalista, especialista em psicanálise infantil.
Professora substituta UERJ(2000). Ex-diretora do CEPAC. Consultora de escola particulares.

Revista Catharsis - www.revistapsicologia.com.br/main.shtml