Abraço

Abraço é ato de significação. Talvez ele expresse nosso desejo ancestral de nos reconciliarmos com nossa parte perdida que é o outro.

Um abraço não é somente toque entre os corpos. É desejo de fusão com o outro, desejo de plenitude e de completude.

Quem se abraça se entrega ao outro, mas esse desejo é de tocar a alma que está no corpo e o corpo que está na alma.

Tocamos o que vemos para sentirmos o que não enxergamos.

Abraçamos para nos sentirmos por completo nos braços e no corpo do outro. Através dele sentimos todo nosso corpo através do corpo do outro.

O abraço é aconchego, sinal de proteção e de amor, já que quem ama protege, quem protege ama e abraça.

Portanto, ele é mais do que declaração é atestado de sentimentos, de emoções ou paixões recíprocas já que para o mesmo acontecer os pares se sensibilizam e se sintonizam na mesma freqüência.

Assim, essa prática é, também, climática, circunstancial. Somente em momentos específicos o praticamos. Isso significa que nem sempre estamos preparados para praticar o abraço. Ele representa sinal de amor, amizade, companheirismo e símbolo de alegria visto que não abraçamos outra pessoa em momentos de raiva, fúria.

O ódio é o avesso do amor e a negação do outro. Portanto, o ódio instaura o reino da apartação dos corpos e fecha os braços para o abraço. O abraço é quebra do preconceito e início da convivência com-o-outro. Só abrimos os braços quando a mente se abre para uma nova aprendizagem: do conviver-com-o-outro e do estar-com-o-outro. A abertura dos braços para se encontrar no encontro com o outro não é fácil nem simples. É complexa. Por isso, nem todos os amigos se abraçam.

Apesar de ser uma das práticas mais antigas e universais da humanidade, nem todas as pessoas sabem, de fato, se abraçarem. Ele exige não apenas uma predisposição mental, emocional ou discursiva, mas acima de tudo uma estratégia de se entregar ao outro.

Ailton Siqueira